A minha paixão pela música começou quando tinha uns 12/13 anos. Me lembro
de sentir algo diferente, um desejo de mudar o mundo, questionar, agir,
pular, dançar. A primeira vez que senti este "clic inside" foi ouvindo
Ramones e o álbum ao vivo, It's Alive. Depois, lembro me emocionado com
Buzzcocks (Singles Going Steady) e The Damned (Strawberry). Naquela época,
meu primo Renato Puppi, 4 anos mais velho, já tinha "muito som" e às vezes
gravava umas fitas cassete para mim. Eu esperava ansioso pela próxima
fita e quando recebi uma com Eddie and the Hotrods (Teenage Depression)
no lado A e SHAM 69 no lado B, mais uma vez me impressionei. O quarto
"clic inside" rolou com SHAM 69 tocando HEY LITTLE RICH BOY, a minha música
da semana.
"Hey little rich boy take a good look at me Hey little rich boy take a
good look at me I don't need a flash car to take me around I can get the
bus to the other side of town..."
Tudo em HEY LITTLE RICH BOY me pegou. O solinho inicial da guitarra, a
batida da bateria e depois a voz de Jimmy Pursey no refrão. O solinho
de guitarra no meio também marcou muito, enfim essa música de um minuto
e 40 segundos era tudo que eu precisava.
Começaram em 1975 em Hersham, Londres. O vocalista Jimmy Pursey e o guitarrista
Dave Parsons compuseram hinos da história da música punk. If The Kids
Are United, Hurry Up Harry, Angels With Dirty Faces, The Cockney Kids
Are Innocent, Borstal Breakout. O primeiro álbum veio em 78: Tell Us The
Truth. Depois, That's Life e The Adventures Of Hersham Boys. The Game
de 1980 seria o último álbum da primeira fase do SHAM 69.
Voltaram em 87 com o álbum Volunteer, depois veio Information Libre em
92, Soapy Water And Mr. Marmalade em 87, assim como The A Flies. Agora
em 2001 lançaram Direct Action: Day 21 e esporadicamente fazem shows pela
Europa, E.U.A. e Japão.
A banda lançou muito material ao vivo. Sugiro os dois volumes da série
Live And Loud!!, o BBC RADIO ONE e o Live In Italy 97. Se você não conhece
SHAM, comece por uma coletânea. The First, The Best And The Rest ou The
Punk Singles Collection 77-80 são uma boa pedida.
Para entender a importância do SHAM 69 vale a pena voltar no tempo.
Na Inglaterra, no final dos anos 60 surgiram os Mods (modernists); uma
galera que curtia lambretas, roupas certinhas e música negra americana
e jamaicana (ska). Com o tempo os Mods foram se dividindo. De um lado
o pessoal mais "cool", intelectualizado, refinado. E de outro, o pessoal
mais briguento, proletários, rueiros que exageravam no visual, com cabelo
bem curto, botas e suspensórios, enfatizando a condição de working class.
Em 1968, esses Mods mais briguentos já eram muitos. Sempre causando confusão
em festas regadas à Ska e em estádios de futebol. A imprensa os chamou
de Skinheads e eles assumiram o apelido. Portanto os Skinheads de 68/69
eram apenas jovens adolescentes briguentos que gostavam de música e futebol.
Não eram políticos, muito menos racistas. Esses skinheads foram ficando
mais velhos e a turma foi naturalmente se afastando.
Até que em 77, com a explosão da música punk, esses jovens voltam à cena.
De um lado os punks artísticos, modernos ou intelectuais e de outro os
mais toscos, cockneys, suburbanos com o "espírito de 1969". Estes tinham
como porta voz, Jimmy Pursey, o vocalista do SHAM 69. Pursey falava de
uma maneira simples e direta, falava de justiça, tolerância e união entre
a juventude oprimida. Encorajava-os a lutar pelas suas diferenças: "If
the kids are united they will never be devided", ele cantava.
Mas alguns destes jovens tinham outras idéias e transformavam os shows
do Sham em campos de batalha, o que acabou ficando insuportável e acarretou
o fim da banda (em anexo, Jimmy Pursey sendo preso após um show, em Londres
em 77). Pursey havia sido um skinhead anos antes, e quando viu que surgia
uma nova geração de skins, se emplogou e deu o lendário grito "Skinheads
Are Back" num show em 77. Mas ao contrário dos skins originais do final
dos anos 60, a nova geração estava envolvida com a extrema direita. Esta
associação queimou o filme da banda e a imprensa colocou todos os skins,
fascistas ou não no mesmo saco. A banda acabou renegando essa nova geração
de skinheads, perdeu força, vontade, magia, poesia e acabou. Pursey não
era perfeito, mas ao menos seu coração estava no lugar certo.
Em 1978, a maioria das primeiras bandas punks inglesas como Sex Pistols,
Clash, Damned, estavam por diversos motivos, um pouco longe do seu público
original, enquanto que o Sham 69 estava muito perto, estimulando a união
entre toda a juventude sem futuro. O Sham não deixou que o punk morresse,
não deixou que tudo o que aconteceu em 76, fosse se transformar em new
wave, gótico ou memórias póstumas. Jimmy Pursey e companhia continuou
fazendo o que era importante e essa atitude influênciou as bandas da segunda
geração como Angelic Upstarts, The Business e Cockney Rejects.
Pela música maravilhosa, pela atitude e por aquele "clic inside" , SHAM
69 com HEY LITTLE RICH BOY, é a minha música desta semana.