Dentro da bandeira do Reino Unido são combinadas
a união das cruzes de St. George (símbolo da Inglaterra), de St. Andrew
(Escócia) e de St. Patrick (Irlanda). E o País de Gales ficou de fora
?? Sim. Por ser um pequeno país (território do tamanho do estado do R.J.),
Wales ou Cymru (nome do país nativa) é por vezes esquecido. A beleza natural
e a diversidade de paisagens fazem do pequeno País de Gales um lugar especial.
Além disso chama a atenção, a vibrante cultura galesa com fortes raízes
celtas e a rica arquitetura de suas cidades, castelos e abadias em ruínas.
O povo galês é interessantíssimo e de muita personalidade; além de exportar
atores como Richard Burton, Anthony Hopkins, Catherina Zeta Jones, escritores
como Dylan Thomas e Richard Llewellyn, ou os músicos John Cale e Tom Jones,
esta terra linda e mística produz excelentes bandas de rock.
O punk rock galês nos presenteou com grupos como Partisans, The Opressed,
The Cowboy Killers, Icons of Filth, Anhrefn e Llanelli's Llygod Ffyrnig
(primeiro single do punk welsh em 1977).
No cenário pop rock se destacam o The Alarm, Gorky's Zygotic Mynci, Super
Furry Animals, Stereophonics, Catatonia e o Manic Street Preachers. Este
último é a maior banda do rock galês. Já o Gorky's e o Super Furry Animals
se destacam por cantar em sua língua nativa: o welsh, uma bizarra e interessante
combinação de muitas consoantes e pouquíssimas vogais. 20% da população
galesa fala o idioma galês, que continua sendo a língua-mãe da maior parte
da população rural ao norte e oeste. Nos últimos anos, o governo reafirmou
o compromisso em preservar e desenvolver a cultura galesa e de fomentar
um maior uso do idioma. O Welsh já é obrigatório no currículo nacional
e vem sendo muito usado para fins oficiais e na mídia. A maior parte da
sinalização rodoviária é grafada tanto em galês como em inglês. A língua
galesa está vivendo uma renovação junto aos mais novos, não só no País
de Gales, mas também na Patagônia (Argentina), onde a região de Chubut
(cerca de 1125 Km ao sul de Buenos Aires) recebeu 153 emigrantes galeses
em Maio de 1865.
Com músicas e/ou álbuns com títulos como Ysbeidiau Heulog ou Pentref Wrth
y Môr, por exemplo, o Gorky's e o SFA representam este resgate cultural
da língua nativa, porém a maior e mais querida banda de Wales se chama
Manic Street Preachers.
O Manic Street Preachers não canta em welsh, suas letras são em inglês.
O Manics é genuinamente britânico e assim como o The Jam, se absteu de
espelhar seu sucesso nos E.U.A. Formado oficialmente em Blackwood no ano
de 1989 por James Dean Bradfield (voz e guitarra), Nick Wire (baixo),
Sean Moore (bateria) e Richey James Edwards (guitarra base).
Antes de começar com a banda já eram amigos, pois jogaram futebol juntos
por vários anos. James era um bom jogador e até jogou na seleção juvenil
do País de Gales, mas uma lesão encerrou precocemente suas chances de
se tornar um profissional. Nas comemorações dos 10 anos dos Sex Pistols
em 1986, os 4 amigos tiveram a idéia de formar uma banda. Mas a idéia
só se concretizou 3 anos após, quando os primos James e Sean recrutaram
um guitarrista conhecido como Flicker e formaram a banda que inicialmente
se chamava Betty Blue. Líam Marx, Sartre, Camus, Guy Debord, Orwell, Rimbaud,
Salinger, Sylvia Plath, Valerie Solanas.
Escutavam Clash, Sex Pistols, Public Enemy e The Who. Embora convivendo
com os caras, Richie não fazia parte da banda mesmo tendo desenhado a
capa do primeiro single "Suicide Alley", que foi bancado pela própria
banda que agora já se chamava Manic Street Preachers. A capa do single
foi inspirada no primeiro disco do Clash, confirmando a influência e a
sonoridade do Manics naquela época, uma mistura de punk com hard rock.
"Nos estamos o mais longe possível dos anos 80" - disse anos mais tarde,
Richey.
O segunda lançamento foi um Ep de 4 faixas intitulado "New Art Riot" em
90, já contando com Nick Wire e Richey (ambos responsáveis pelas letras,
pois eram os menos talentosos musicalmente falando). Comentários negativos
da imprensa não impediam que ouvidos atentos formassem um público cada
vez mais fiel. A banda tinha a reputação de ser um verdadeiro grupo punk
socialista retrô.
"Lenin e Marx eram tão importantes para mim quanto as estrelas do rock".
(Nick Wire).
Nick e Richey pintavam suas próprias camisetas com spray (assim como fazia
o clash Paul Simonon) com dizeres socialistas ou com nomes de suas músicas.
No palco usavam maquiagens e criavam situações homo-eróticas. O sucesso
do single "You Love Us" alavancou uma turnê recheada de incidentes alcoólicos
e confrontações com seguranças. Nesta mesma tour ocorreu um dos episódios
marcantes da história do Manics: após um show em Norwich, o jornalista
do NME Steve Lamacq criticou Richey questionando sobre a seriedade e sinceridade
do discurso da banda, além de dizer que a pose autodestrutiva do Manics
não era prá valer. Foi então que sem nenhum aviso, Richey pega uma navalha
e corta seu antebraço formando a expressão "4REAL". Em seguida o mais
carismático e enigmatico membro dos Manics foi levado a um hospital onde
levou 17 pontos.
Em Maio deste ano de 91 assinam com a Sony/Columbia. Em Fevereiro de 92
finalmente é lançado o primeiro álbum, o LP duplo "Generation Terrorists",
com a capa baseada numa tatuagem de Richey. Cantando as angústias da classe
trabalhadora, a alienação do consumismo ou a frustação de serem jovens,
belos e pobres, o Manics era uma anfetamina na geração do ecstasy, pensava
como Chomsky e fazia rock sujo como os Sex Pistols. Os álbuns seguintes
"Gold Against The Soul" e "Holy Bibble" falavam de insônia, anorexia,
criticavam uma geração despolitizada e adormecida (e se incluiam em feroz
auto crítica) e assim abocanhavam uma legião de fãs. O som da banda ficava
cada vez mais punk e hard rock, Richey estava no auge criativo de suas
letras e niilismo e cada vez mais perturbado e enlouquecido, o que resultou
num internamento depois de uma série de incidentes que incluíram novas
sessões de auto mutilação e abuso de drogas. Diagnóstico: colapso nervoso.
A imprensa adorava.
Após uma bem sucedida tour para o álbum "Holly Bibble", os Manics se preparavam
para excursionar nos E.U.A. em Fevereiro de 1995. No dia de partir para
a tour norte-americana, Richey (que sempre teve uma relação complicada
com o estrelato) some e nunca mais aparece. Seu carro foi encontrado abandonado
perto da ponte Severn Bridge, próximo a um penhasco, um lugar onde já
aconteceram vários suicídios. Cartões de crédito, prozacs e o passaporte
foram encontrados no apartamento do seu hotel, mais tarde foram descobertas
retiradas de 200 Libras por dia durante 10 dias. No entanto, o corpo de
Richey nunca foi encontrado e o caso até hoje não foi resolvido.
Os três Manics restantes passaram por momentos dolorosos e confusos. Sem
saber o que aconteceu realmente com o amigo e continuamente sendo questionados
pela mídia sobre seu futuro, era preciso se decidir. Optaram por continuar
como um trio, mas apenas se isto fosse permitido pelos pais de Richey,
que apoiaram a decisão.
A banda voltou a ativa somente em dezembro de 95 abrindo um show para
os Stones Roses em Wembley. Em Maio de 96 apresentam o álbum "Everything
Must Go", aclamado por público e crítica, alcançando o número 2 da parada.
Um disco mais calmo, com arranjos mais suaves e inserções de cordas, sem
letras pessimistas embora 5 letras do álbum ainda sejam de Richey. Após
receber o prêmio de melhor disco e melhor banda no Brit Awards de 97,
a banda fica 18 meses longe dos holofotes, escrevendo e gravando músicas
para o álbum mais esperado no Reino Unido em 98: "This Is My Truth Tell
Me Yours" que chegou fácil ao número 1. A presença de Richey ainda é sentida
seja no título do disco, seja nas letras ("You're Tender and You're Tired"
fala sobre o direito que o guitarrista tinha de se deixar levar e morrer
e, "Nobody Loved You" fala da tentativa dos amigos para livrar Richey
das drogas).
Em 99 repetiram o feito de melhor disco e melhor banda no Brit Awards.
Na virada do milênio fizeram um show gigante em Cardiff, no maior estádio
de Gales (Millenium), onde seus rostos foram esculpidos em pedra
Em 2001 lançaram "Know Your Enemy" seu disco mais variado, englobando
vários estilos e resgatando alguns elementos do início da carreira do
grupo, como a temática política e músicas pesadas. Para lançar o novo
álbum escolhem a cidade que mais simboliza o comunismo: Havana. O local
do show foi o Karl Marx Theatre com ingressos a menos de um real. Na platéia
de 5 mil pessoas, a presença ilustre de Fidel Castro. Os alemães do Die
Toten Hosen, e os Manic Street Preachers foram as primeiras bandas do
mundo capitalista a se apresentar em Cuba.
"Sus recitales son más ruidosos que la guerra". Fidel Castro.
"Know Your Enemy" realmente é um disco fantástico: seis meses antes dos
aviões da American Airlines levarem as torres do World Trade Center ao
chão em Nova Yorque, um grito ecoava do outro lado do Atlântico, num pequeno
país chamado Gales: "A América é o playground do Diabo!". A "ameaça" estava
num disco cujo título dava a deixa: "Conheça Seu Inimigo". O melhor disco
comuna desde Sandinista do Clash. 16 faixas brilhantes com letras saudando
Fidel, uma música chamada Baby Elián (que trara do episódio do menino
cubano que foi levado aos Estados Unidos contra a vontade do pai), lembranças
amargas do Macartismo, da "Guernica" de Pablo Picasso, entre outras referências
à Guerra Fria. Musicalmente, uma mistura de estilos (como o psicodelismo,
o punk rock e o funk), mas sempre soando rock and roll.
Estão com disco novo na praça, inclusive aqui no Brasil, uma coletânea
chamada "Forever Delayed" com os greatest hits da banda mais duas faixas
inéditas.
DEAD MARTYS, faixa 9 do álbum "Know Your Enemy" da banda galesa MANIC
STREET PREACHERS, é a minha Música da Semana.
The only interesting answers are those which destroy the questions". -
Susan Sontag.
Fotos: 1) Primeira fase. 2) Primeira fase. 3) Charutos e Cristal em Cuba.
4) Richey Edwards - época do desaparecimento. 5) 4REAL. 6) Show em Cuba.
7) Fidel na platéia. 8) Capa do primeiro álbum, LP duplo/cd simples..
9) Capa do Know Yor Enemy.