Não era fácil gostar de punk rock no final dos
anos 80 aqui em Curitiba. Poucas lojas possuíam em suas prateleiras, discos
em vinil de boas bandas do gênero. Na Música Viva, Savarin e Megaphone
podíamos encontrar lançamentos de gravadoras nacionais em catálogo na
época (coisas boas como Ramones-Road To Ruin, P.I.L., Adolescents-Balboa
Fun Zone, Circle Jerks-VI, T.S.O.L., Cock Sparrer,etc etc... ou bandas
nacionais como Ratos de Porão, Cólera, Garotos Podres, Mercenárias) e
raramente, algum Lp importado por um preço abusivo, principalmente para
adolescentes como eu e você na época.
Na Raridade Discos, às vezes surgia algum álbum que nos fazia respirar
com mais qualidade: Heartbreakers, X, Black Flag, G.B.H.
Talvez as lojas mais clássicas daquela época tenham sido a Jukebox e a
801. Alí na 13 de Maio com a Duque de Caxias e Duque de Caxias com 13
de Maio. Eu vivia por alí, pois minhas avós moravam nestas ruas e a pista
de skate do Gaúcho era no mesmo bairro.
A 801 era cool. Posters e um monte de bandas indie.
A Jukebox era mais voltada para o punk/hardcore. Vendiam camisetas, adesivos,
botons, fanzines e algumas poucas gravações em fitas cassete. Sempre tinha
algum disco importado que nos deixava de boca aberta.
Mas o que "pegava" mesmo naquela época, era ir para São Paulo e comprar
alguns discos e gravações nas lojas das Grandes Galerias da rua 24 de
Maio.
A diferença era chocante e assustadora!!! Valia a pena gastar o dinheiro
da passagem de ônibus, mas voltar com 3 ou 4 discos embaixo do braço.
Outra alternativa era as fitas da New Face, e merece um parágrafo a parte:
Em 1979, Fábio, futuro vocalista do Olho Seco, abriu a Punk Rock Discos,
na Galeria do Rock, que passou a ser o ponto de encontro dos punks da
cidade de S.P. Além de vender discos raríssimos do punk americano e europeu,
Fábio Sampaio promoveu um intercâmbio violento, iniciando a fama do movimento
punk brasileiro lá fora. Em 1982, Fábio lança o Lp Grito Suburbano inaugurando
o seu próprio selo Punk Rock Discos. Nesta época, punk em S.P. era sinônimo
de brigas, violência e polícia; e a loja foi obrigada a fechar as portas
graças a um abaixo-assinado promovido por outros comerciantes da galeria.
Algum tempo depois, no meio dos anos 80, a gravadora reaparece sob o nome
New Face Records, lançando o primeiro álbum de uma banda punk da América
Latina: Crucificados pelo Sistema, do Ratos de Porão. A New Face também
lançou inúmeros álbuns excelentes do punk europeu e além disso,
istribuía felicidade, via Correios do Brasil, através de um catálogo fenomenal
com fitas gravadas com materiais raríssimos. Eram bandas de todas as partes
do mundo, clássicas, obscuras, americanas, finlandesas, suécas, italianas.
Para nós aqui de Curitiba, as fitas da New Face era o que nós fazia mergulhar
além do trivial. Acabou em 89 e um pedido meu (leia-se: grana) ficou por
lá mesmo... o preço de duas fitas de 60 não era nada perto do prazer que
a New Face já tinha me proporcionado.
Dias atrás estava ouvindo uma dessas fitas, uma coletânea de 60 minutos
com um monte de PunkUk82... A fita abre com Abrasive Wheels tocando "BURN
'EM DOWN", a minha música desta semana.
Abrasive Wheels começou no final de 79. Lançou apenas dois álbuns. O primeiro
é obrigatório "When The Punks Go Marching In!", lançado em 83. O segundo
"Black Leather" de 84, puxa muito para o hard rock. Se você quiser um
pouco das duas fases, ataque de "Punk Singles Collection" da gravadora
Captain Oi!.
"BURN 'EM DOWN" é a faixa 7 do PunkSinglesCollection, mas também está
presente no "When The Punk Go Marching In!", um dos melhores álbuns do
punk inglês de todos os tempos. Quando ví este disco na Jukebox, há 13
anos atrás (foi você quem comprou Folloni?), eu só conhecia BURN 'EM DOWN,
a minha música daquela e desta semana.
s. parte do texto sobre a Punk Rock Discos, tirei de um texto presente
no excelente site que o Folloni, o Renato Munhoz e outros comandam. Não
deixe de conferir: