"Ah, a tristeza de saber, no fim da leitura de certos livros, que nunca
mais os leremos pela primeira vez, que não se repetirá jamais a sensação
da primeira leitura".
Transporto esta frase para o skate e para a música, e penso que nunca
mais sentirei aquele "clic inside" igual aquele que senti quando ouví
Ramones It's Alive ou Buzzcocks Singles Going Steady pela primeira vez.
Nunca mais ficarei bêbado da mais pura euforia, a euforia infantil, de
deslizar em um skate pela primeira vez, dentro da loja Tom Brasil (Nilo
Cairo, 300) aos 13 anos de idade.
Algumas sessions no Jardim Ambiental eram embaladas pelo som stereo que
o Maguila (dono da Maha) levava. A primeira vez que ouvi Suicidal Tendencies,
Agent Orange foi lá. Eu, o Guinalda íamos na Maha e tinha um poster do
Suicidal Join The Army estourando na parede.
Mas o ponto alto de tudo isso, era o campeonato que a Maha realizava uma
vez por ano no Ambiental. Toy Dolls, Dead Kennedys, TSOL, Misfits, PIL,
Oingo Boingo, go for itizando os "semi-prós" Maguila e seus judo airs
com cross bones azuis, Pepeu e seus smith grinds de front com bullets
66 amarelas, Franco e seus lien airs, Catarina e seus inverts, Márcio
Cabalero e seus boardslides.
Piolho e Misael aprendiam suas primeiras manobras. Marcelo Kosake já se
destacava entre os amadores.
Tudo com muito estilo na pista, as belas amigas da sua irmã mais velha
nas arquibancadas e uns piás como eu, o Guinalda, o Rodrigo "No Milk Today"
Minduin, o Pança, o Joãozinho, o Osiris e o Josu, se sentindo no paraíso.
O skate no Brasil se popularizou no meio dos anos 80. Toda cultura do
skate nacional era importada dos E.U.A. As marcas brasileiras eram as
gringas chupadas, o tênis Mad Rats era cópia descarada do Vans... mesmo
assim foi uma fase muito legal. O skate brasileiro superou o plano Collor,
superou o prefeito Jânio Quadros proibindo o skate nas ruas de S.P. em
89, superou o fim das revistas Yeah! e Overall, sobreviveu, cresceu e
hoje é campeão do Mundo.
A Overall Skate Magazine, da editora TRIP, sempre produzia algo interessante.
A minha capa predileta é a da edição 17 (Set 89) com a Silvia Rossi fotografada
no quarto do Mureta. A Overall era comandada pelo editor Paulo Lima, pelo
César Girão (atualmente da Revista Tribo), Cesinha Chaves, Formiga, Daniel
Bourqui (hoje fotógrafo renomado nos E.U.A.), entre outros. Alguns destes,
lançaram recentemente o livro A Onda Dura - 3 Décadas de Skate no Brasil.
Confira.
Hoje a piazada compra a excelente revista do Alê Vianna, a 100% Skatemag
e na seção de som, lê coisas escritas por quem realmente conhece, como
o skatista e músico César Lost.
Skate Rock como gênero musical no Brasil, praticamente não existiu. Para
não passar em branco podemos falar do Coquetel Molotov, primeira banda
punk do R.J. com o freestyler Lúcio Flávio. Em S.P. apareceu o Necrópole
(tocando Intense Energy do Agression, no programa Boca Livre do Kid Vinil
- Tv Cultura - às Segundas 20 horas - lá pelos idos de 1989) e o Grinders.
Mas na verdade a garotada ouvia o que estava sendo lançado na época ou
o que o Bolota, o Arthur Verissimo, a Cecília Mãe e o Guto Jimenez escreviam
na Yeah! ou na Overall. Então tinha de tudo: The Cure, TSOL, Circle Jerks,
Adolescents, Toy Dolls, Metallica, Public Enemy, The Smiths, Sepultura,
Ratos de Porão, The Cult, umas coisas góticas, uns reggaes.
Fotos:
- Capa do livro A onda Dura.
- Maguila, um dos primeiros skatistas do Brasil, fundou a Maha em 77 !!
- Dudu fazendo estilo rock slide na trave.
- Guinalda emburrado com o grind de front do Dudu no half-pipe caseiro
nos fundos da fábrica de biscoitos Tip-Top. Foto by Rodrigo Minduin, um
dos construtores deste Half em 1989. O Dinoel (R.I.P.) morava atrás da
fábrica e pulava o muro p/ andar. A gente ficava puto e "amarrava" a pista
com correntes e cadeados.