No começo dos anos 70, o skate estava em baixa no mundo todo, a febre
já tinha passado e ninguém mais se interessava naquele limitado brinquedo
com rodas de plástico. Até que em 1972, um surfista e engenheiro químico
estado-unidense chamado, Frank Gainsworthy, inventou um novo material,
as rodinhas de uretano. Em poucos meses, o uretano embalava skates e aí
começava a primeira revolução do esporte. Além de silenciosas, era realmente
mágico os benefícios que as Cadillac Wheels proporcionava: velocidade,
controle, estabilidade, durabilidade e aderência. A partir daí, o que
se viu foi uma sequência de acontecimentos que fez o skate evoluir sem
parar. No quesito equipamento, vieram eixos especialmente projetados (Tracker
Trucks), shapes laminados com lixas e rolamentos de precisão. As manobras
íam surgindo a cada dia e naturalmente e sem nenhuma alavanca midiática
ou publicitária, o skate ganhava uma popularidade impressionante. Skate
parks pipocavam em todo mundo. A primeira surgiu em San Diego, Ca. As
mais extravagantes e perfeitas eram as americanas e européias. A primeira
pista de skate do Brasil surgia em 74, na cidade carioca de Nova Iguaçu.
Em Curitiba, a primeira pista apareceu em 1976, na Praça do Redentor em
frente a Sorveteria do Gaúcho. Mas o brasileiro que quisesse ter um bom
skate nesta época, só um importado, pois o único fabricado por aqui, era
o Torlay, da Bandeirantes, um skate com rodinhas de plástico e eixos de
patins, cópia fiel daqueles rústicos carrinhos de 1965.
Em 1976, uma forte estiagem assolou Los Angeles, e um racionamento de
água obrigava o esvaziamento das piscinas por toda a cidade. Os skatistas
encontraram nestas piscinas mais um ótimo lugar para andar e mais uma
modalidade surgia: o Skate Vertical. Um pequeno garoto inventa "quase
sem querer" uma manobra que tornaria quase tudo possível no mundo do skate:
levitando seu carrinho nas piscinas (batendo com o pé de trás e guiando
com o pé da frente), Allan Gelfand nem sonhava que seu pequeno ollie pop
em transições verticais, revolucionaria as manobras e a forma de andar
de skate. Alguns anos mais tarde o também pequeno Rodney Mullen, levitava
seu skate em superfícies planas, ampliando ainda mais o leque de possibilidades.
Protagonistas e responsáveis por toda evolução e rápida transformação
do skate, os Z-Boys marcaram época entre 75 e 79. Lendária turma de skatistas
que surgiu em Dogtown, nome de uma região de poucas quadras situada entre
Venice e Santa Monica.
Venice, tinha sido idealizada como uma espécie de Coney Island do Oeste
americano; um bairro temático (imitava Veneza) com um enorme parque de
diversões (Pacific Ocean Park- P.O.P.). Abandonada e desvalorizada no
final dos anos 60, a região agora chamada de Dogtown, foi adotada por
hippies, surfistas rebeldes e músicos como Jim Morrison, transformando
a região num mosaico de etnias, idéias e atitudes. Uma terra de ninguém,
onde hippies, surfistas, piromaníacos e junkies poderiam se exceder em
simbiótica desarmonia, entre os escombros do P.O.P Pier, sanatórios, liquor
stores e centros de reabilitação.
Neste cenário, uma garotada working class, filhos de pais separados, surfava
de manhã na praia de Venice. À tarde, se encontravam para andar de skate
em frente a surf shop Zephir em Dogtown. Encantados com a evolução da
garotada, os donos da Zephir (Jeff Ho, Skip Engblom e Craig Stecyk) resolveram
patrocinar e formar uma equipe de skate, para competir no primeiro grande
campeonato americano, o Del Mar Nationals, assim nasceu a equipe Z-Boys
Skate Team. Até então, excetuando aquela turminha de Dogtown, a maioria
dos skatistas andavam como nos anos 60. Neste campeonato de Del Mar, o
Z-Boy Jay Adams mostrou um novo estilo e manobras inéditas. Os juízes
espantados, não sabiam como julgar, os outros competidores ficaram putos
e a platéia extasiada. Um artigo e um ensaio fotográfico feito por Stecyk
para a revista Skateboarder, transformou os Z-Boys em heróis do dia para
a noite.
"Aquelas fotos mostravam muito mais do que um cara andando de skate. Elas
mostravam um estilo de vida, uma atitude, um código".(Henry Rollins)
Os Z-Boys (onze homens e uma garota, Peggy Oki) era uma banda de punk
rock sem guitarras. E antes do punk. Como bons rebeldes, não estavam em
busca de fama ou fortuna. Isso veio naturalmente. O que eles queriam mesmo
era andar de skate e se fosse necessário, invadiriam casas de forma ilícita,
para usufruirem de suas piscinas vazias. Hoje em dia, com a explosão da
mídia, seria impossível que eles durassem como uma força underground íntegra
por tanto tempo.
Os Z-Boys e todos os outros skatistas daquela área quebraram barreiras
no esporte e na sociedade. Em apresentações por todo o país, levaram o
estilo de vida e a essência do skate ao limite máximo. Tornaram-se famosos
e afortunados com 20 anos de idade. Ao mesmo tempo, invadiam a sua casa,
andavam de skate na sua piscina, realizando manobras cada vez mais radicais,
colocavam uma fita do Ted Nugent, Hendrix ou Led Zeppelin no seu stereo,
fumavam um baseado e caíam fora. Trouxeram ao skate uma imagem de "fora-da-lei",
rebelde e outsider. Mexicanos, franceses, asiáticos, negros, brancos e
judeus inventando "coisas" como frontside airs e handplants. Dalí sairam
nomes como Jay Adams, Stacy Peralta, Jim Muir, Tony Alva, Allen Sarlo,
Bob Biniak, Wentzle Ruml, Shogo Kubo, Peggy Oki, Nathan Pratt, Chris Cahill
e Paul Constantineau.
Gino, amigo desses caras, era um menino rico que estava morrendo por causa
de um câncer. O pai de Gino, resolveu esvaziar a sua piscina, e convocou
todos os Z-Boys para lá andarem de skate sem a preocupação de serem presos
pela polícia. Chamaram a pista de Dogbowl, pois vários cachorros vagavam
em volta da piscina.
"As sessions no Dogbowl entre 77 e 80, foi o auge para todos nós. Foram
os anos de ouro" (Tony Alva).
Foi no Dogbowl que Alva realizou o primeiro frontside air da história.
Os aéreos de Tony Alva foram o ponto de partida para uma nova era no skate.
Para se ter uma idéia da importância desses caras no skate, vamos falar
um pouquinho mais sobre os mais notáveis.
Tony Alva: o original, o Chuck Berry do skate. O inventor do skate vertical,
o primeiro cara a realizar um aéreo, o primeiro a estruturar uma vida
estritamente no skate. Hardcore, radical e estiloso. Sinônimo de invasão
domiciliar para deslizar em piscinas. Proprietário de sua própria e bem
sucedida marca, Alva Skateboard Company. Começou no meio dos anos 60 e
continua viajando pelo mundo em demostrações e eventos.
Jay Adams: a alma, o espírito, o Little Richard do skate. Visceral e criativo,
criava manobras a cada dia. Sua contribuição ao skate não tem paralelos.
Começou com 6 anos de idade, junto com o surf. Seu pai, Kent Sherwood,
surfista de longa data, alugava pranchas em Venice. Reconhecido como o
mais talentoso Z-Boy, frequentemente premiado e dono de uma grande legião
de fãs em todo mundo. Sucumbiu às tentações de um jovem de sucesso e atualmente
está preso no Hawaii, atrás das grades por uma séries de episódios com
drogas.
Stacy Peralta: um dos pais do skate moderno. Foi o primeiro Z-Boy que
trabalhou a sua imagem e seus lucros. Anos depois fundava junto com George
Powell, sua própria marca, a legendária Powell Peralta. A marca mais influente
da história do skate, a marca que descobriu Tony Hawk e o patrocinou quando
este tinha apenas 11 anos. Chefe e fundador da equipe Bones Brigade. Sempre
ligado ao cinema, trabalhou com Steven Spielberg e revolucionou os filmes
de skate com o marcante, The Bones Brigade Video Show, em 1984. Em 91
abandonou a Powell Peralta para trabalhar apenas com produção e cinema.
Jim Muir: o coração e a raiz do skate em Dogtown. Enquanto os Z-Boys competiam,
Muir ficava atrás da cena, confeccionando shapes para os seus colegas.
Feitos a mão, as tábuas de Muir eram as melhores, mais leves e resistentes.
Em 76, começou a vender suas tábuas sob o nome de Dogtown Skateboarding,
colocando a logomarca Dogtown no mercado. Desde então, dirige a empresa
e pratica surf e snowboard frequentemente. Ainda mora em Venice com seu
filho de 10 anos. Seu irmão mais novo, Mike Muir, levou o nome Dogtown
para o mundo da música, com a famosa banda Suicidal Tendencies.
Shogo Kubo: imigrante japonês, chegou em Venice aos 12 anos. Começou motivado
por Jay Adams, que andava de skate no estacionamento da escola de judo,
que ambos frequentavam. Atualmente mora no Havaii, onde pratica surf longboard.
Voltou ao skate a poucos anos atrás, inclusive assinando um model para
a Bull Dog Skates.
Allen Sarlo: terceiro lugar em slalom no Del Mar Skate Nationals. Aos
16 anos, como membro do Jeff Ho Surf Team, conseguiu a façanha de vencer
o lendário campeonato de surf Malibu 4-A. Atualmente, um surfista big
rider de primeira, competindo no Master Quicksilver Pro-Tour. Surfa todo
dia; anda de skate, na rampa que construiu no quintal de casa, quando
o mar está pequeno.
Craig Stecyk: mentor da equipe Z-Boys. Fundador da Jeff Ho and Zephir
Productions Surf Shop. Pintor, fotógrafo e jornalista. Grafitando e pintando
shapes, seu traçado marcou a estética surf/skate. Desenhou a famosa logomarca
das rodas Rat Bones.
Não posso deixar de recomendar o filme: Dogtown & Z-Boys. Premiado como
o melhor documentário do Festival de Sundance de 2001, o filme foi dirigido
por Stacy Peralta. Retrospectiva completa sobre a época por meio de imagens
originais feitas em Super 8 e entrevistas atuais. Narrado pelo ator Sean
Penn, o documentário de uma hora e meia, ainda conta com depoimentos de
músicos como o black flag Henry Rollins, Ian MacKaye (Fugazi) e Jeff Ament
do Pearl Jam. Sucesso nos cinemas americanos, aqui no Brasil ficou em
cartaz apenas na 26ª Mostra BR de Cinema de S.P., em outubro. Torcemos
para que em breve, apareça pelo menos nas video locadoras.
Outro biscoito fino sobre Dogtown e os Z-Boys, vem de um dos melhores
fotógrafos de todos os tempos: Glen E. Friedman. Glen começou a fotografar
a cena de Dogtown em 1974. Aos 14 anos, se tornou colaborador da Skateboarder
Magazine. Também documentou o início do hardcore americano no final dos
anos 70 e as raízes do Rap no meio dos 80'. Trabalhou com muitas bandas
importantes como Dead Kennedys, Suicidal Tendencies, Misfits, Fugazi,
Beastie Boys e Run DMC. Glen compilou seus 25 anos de carreira no skate
e na música, em dois livros: Fuck You Heroes (94) e Fuck You Too (96).
Além de colaborar com o documentário, Glen lançou o livro: "Dogtown -
The Legend Of The Z-BOYS", seu trabalho mais recente.
Aprecie as photos, logo abaixo:
-Tony Alva na Dogbowl por Glen E. Friedman.
-Tony Alva cheio de estilo. "Estilo era tudo. Ter um bom estilo definia
ser bom ou ruim no skate".
-Capa do documentário.
-Capas dos livros de Glen Friedman.
-Pista do Gaúcho em Curitiba.
-Jay Adams by Glen.
-Bela piscina.
-Darby Crash dos Germs e seu skate.
-Tony Alva em competição.