Os
primeiros meses do punk foram tão intensos, densos, ricos em fatos, anfetaminas
e mudanças, que em 77 tudo que aparecia já era considerado da "segunda
geração". O que dizer então, de grupos de 79, 80 ou 81? Foram grupos importantíssimos,
pois mantiveram o espírito no ar (Punk's Not Dead!!!); fizeram conexões
com outros estilos musicais que originou o cross-over, trash metal e speed
core, por exemplo. Também foram responsáveis por um novo visual, um novo
discurso.
Para entender a importância destas bandas, vale a pena comentar que no
final de 79, o punk rock estava declinando. Bandas clássicas que ainda
existiam, estavam ligadas a grandes gravadoras e dependiam de algum sucesso
comercial para sobreviver. A solução foi experimentar sons mais palatáveis
como a New Wave. Bandas como Undertones, Wire, Ultravox, tiveram que se
socializar, como a "nova onda" de Duran Duran, The Police, Echo & the
Bunnymen. O que sobrou de realmente punk foi dividido grosseiramente em
dois grupos: um de bandas das primeiras gerações que teimavam em fazer
punk rock (Ramones, Buzzcocks, Sham 69, Dickies, U.K. Subs, etc). e um
outro, bandas novas e underground, cujo som era bem mais cru e direto
do que os seus predecessores.
O visual destas novas bandas era mais agressivo, as letras falavam de
guerra, injustiças sociais e confrontos com a polícia, por exemplo. Exploited,
Varukers, Discharge e G.B.H. foram exemplos de bandas desta nova geração,
que tiveram coragem e talento para criar um estilo próprio. Estilo que
influenciou todas as bandas punks que surgiram depois. No Brasil não foi
diferente. A explosão do punk brasileiro veio apenas em 1982. Jovens da
periferia de S.P. com um visual agressivo e tosco. Jaqueta de couro preta
com rebites, coturno, cabelo espetado ou moicanos coloridos. A sonoridade
também era influenciada pelas bandas britânicas do começo dos anos 80.
Muitos destes discos foram lançados aqui no Brasil, via New Face Records,
do Fábio Sampaio, vocalista do Olho Seco.
Os anos passavam e em 85/86, essas bandas seguiam a linha crossover/metal
tão difundida no mundo inteiro.
Exploited e G.B.H. são exemplos de longevidade e qualidade, neste estilo
que eles mesmo criaram.
Vamos falar um pouco mais do G.B.H.
Começaram em 1980, em Birmingham (cidade fria e industrial de onde já
havia saído o Black Sabbath, onze anos antes), o primeiro show foi um
concerto em benefício às suas melhores amigas, prostitutas. O significado
do nome é dificilmente conhecido por quem mora fora do Reino Unido. Lá
existe uma graduação para lesões corporais por agressão. O grau mais leve
se chama ABH(actual bodily harm), e assim por diante, até chegar no mais
sério GBH (Grievous Bodily Harm - Lesão Corporal Grave). De 1980 até 84,
adicionaram a palavra CHARGED antes do GBH, pois já existia uma banda
de Londres com esse nome. Quando a tal banda desapareceu, o CHARGED foi
dispensado.
O primeiro Lp, "Leather, Bristles, No survivors and Sick Boy" (uma coletânea
dos primeiros Eps e compactos) é altamente recomendável, assim como os
álbuns "City Baby Attacked By Rats"(de 82) e "City Babys Revenge(83),
todos pela Clay Records.
Em 1986, o primeiro álbum sem o CHARGED (antes do GBH), o primeiro pela
gravadora ROUGH TRADE: "Midnight Madness and Beyond" (que foi lançado
aqui no Brasil), trazia um G.B.H ainda mais agressivo, angustiado e furioso,
cada vez mais influenciado pelo Motorhead.
Após 7 anos com a mesma formação, mudam de baterista e lançam ótimos álbuns
como: "No Need To Panic"(87) e "A Fridge Too Far"(89).
Nos anos 90, mais mudanças no drum kit e poucos álbuns, o melhor deles,
"Punk Junkies" de 97.
No ano 2000, tocaram em terras brasileiras, pela primeira e única vez.
Em 2001, sai um Ep split com o Billyclub.
Acabaram de lançar um novo álbum, pela Go-Kart, intitulado, "Ha Ha". E
felizmente, o que ouvimos, é o mesmo G.B.H. de sempre: agressividade sonora
na medida certa, letras simples e diretas sobre conflitos, neuroses, mulheres
com muito passado e homens sem nenhum futuro.
Por ser a minha banda favorita "daquela turminha britânica" do começo
dos anos 80; por "City Baby Attacked By Rats" ser o meu álbum predileto
de Colin, Jock e Ross; I AM THE HUNTED, do Charged G.B.H é a minha música
desta semana.