Nesta primeira
semana do inverno estou viciado em Buzzcocks. De tempos em tempos isso
acontece comigo. Principalmente se a banda estiver entre as Top 3, o que
no caso dos Buzzcocks é uma posição há muito tempo conquistada. Portanto
seria natural que eu escrevesse uma Música da Semana sobre Pete Shelley,
Steve Diggle e companhia. Mas não consegui. Talvez pelo “peso da responsabilidade”
ou talvez por chover no molhado de enaltecer estes veteranos mancunians
(from Manchester), elogiados pela revista UNCUT (num bom texto de 3 páginas)
do último mês de maio como: os Beatles do Punk Rock.
Tentei. Iniciei falando do começo da banda com Howard Devoto nos vocais,
Diggle no baixo; escrevi algo sobre a importância deles na cena dos bons
sons de Manchester (o filme em cartaz “A Festa Nunca Termina – 24 Hour
Party People” mostra um pouquinho disso...). Mas depois travou. Saí da
frente do computador e fui para o meu quarto. E voltei a ouvi-los incessantemente
como um viciado em drogas traiçoeiras. Assunto é o que não faltava. Podia
escrever linhas e mais linhas sobre a história interessante deles.
Ou sobre as últimas novidades que não são poucas. Por exemplo:
- os Buzzcocks acabaram de lançar um novo álbum. O quarto depois da volta.
O álbum não tem título. Saiu pela Merge Records. Tem todas as letras.
Diggle canta 5. Shelley canta as outras 7, sendo que duas delas são de
co-autoria com o velho Devoto. Pode não ser o disco mais inspirado deles,
mas um disco dos Buzzcocks sempre é obrigatório. E este merece um 8,5.
Ah! E tem uma regravação de Lester Sands !!
- também estão com site reformulado. Quem montou o site foi um brasileiro
de S.P.: o Flávio Sant’Anna.
- Estão em turnê pelos E.U.A. Em julho serão a banda de abertura dos mega-
shows do Pearl Jam por toda América do Norte. Eddie Vedder os convidou,
assim como Kurt Cobain também fez em 1994.
Lançaram um disco ao vivo com músicas que pouco tocam em shows. O cd só
é vendido no www.buzzcocks.com e se chama “The Internet Album”.
- Steve Diggle escreveu um livro. Nas 256 páginas do recém-lançado “Harmony
In My Head”, histórias sobre a banda, sobre a explosão do punk inglês,
Sex Pitols, The Jam, The Clash. Diggle também conta histórias de sua amizade
com Kurt Cobain, os Buzzcocks foram a banda de abertura do Nirvana na
última turnê deles, antes de Kurt se suicidar.
- E tem mais !! Saiu uma caixa exuberante com todos os singles da primeira
fase da banda. “Inventory” possui 14 cd’s, mais fotos, memorabilia e outras
barbaridades.
- O single da música Jerk (a primeira do novo álbum) saiu em 7 polegadas
colorido. Metade rosa, metade preto. Com uma música inédita do Diggle
no lado B, juntamente com uma versão de Oh Shit ao vivo. Este compacto
bicolor ilustra a página inicial do site que montei com o Maurício “No
Milk” Gaudêncio. Check it out:
http://www.geocities.com/punkolorama
- Após a turnê brasileira de 2001 Pete Shelley morou meio ano no Brasil
!! Shelley conheceu uma garota chamada Maira num dos shows, e ficou morando
em Londrina por 6 meses. A banda local Cherry Bomb chegou a fazer um show
com Mr. Shelley no Valentinos Bar. Mas o romance acabou, e Shelley voltou
para Londres, cidade na qual atualmente reside.
Pois é... por falta de inspiração optei transcrever
para vocês, um conto de Patrick Marber para ilustrar esta Música da Semana.
Texto presente no livro “Falando Com o Anjo”. “Speaking With The Angel”
é uma coletânea com 12 contos de 12 autores ingleses contemporâneos. Entre
eles: Nick Hornby, Irvine Welsh (Trainspotting), Helen Fielding (Diário
de Brigit Jones), Colin Firth, entre outros. O texto que mais me chamou
a atenção foi o de Patrick Marber, intitulado Peter Shelley. Desfrute
do belo texto e entenda porque “Love You More” dos Buzzcocks é a minha
Música desta Semana. Este texto é dedicado aos amigos André Nervoso, Fernando
Chyczy e Juliano Volpato.
Fotos: 1) Capa do “internet álbum”. 2) Steve Diggle, Pete Shelley, Tony
Barber e Philip Barker 2003. 3) Capa do single dos Adverts. 4) Capa do
livro “Falando Com o Anjo”. 5) Capa do single “Love You More”. 6) Steve
Diggle – meu guitar hero !!! 7) Capa do single “Orgasm Addict”. 8) Pete
Shelley em 1978. 9) Steve Diggle “bronzeado óculos”. Emergência odontológica
na Holanda, no meio da turnê européia do ano passado. 10) Capa do livro
“Harmony In My Head”. 11) Box-Set recém-lançada.
Onde eu estava quando Kennedy foi baleado? Entre as pernas da minha mãe,
nascendo. Georgia achava isso o máximo.
É verão, 1978. Nós dois temos catorze anos. Estudamos na mesma escola,
na mesma turma. Ela me odeia. Sem motivo algum.
Ela está usando três peças de roupa; um vestido de algodão sem gola até
os joelhos e um par de sapatos de amarrar, fechados e pretos. Diz que
roupa de baixo é coisa de hippies. Ela tem três vestidos: um preto, um
cor-de-rosa e um branco. A cada mês ela tinge o cabelo de uma dessas três
cores. E também tem cordões de cores diferentes para os sapatos. Gosto
mais dela de cabelo branco, vestido preto e cordões cor-de-rosa. É o que
ela está usando no último dia de aula.
Vou à loja de discos comprar o novo disco dos Buzzcocks. No inverno passado
eles lançaram um single chamado "Orgasm Addict". A capa era uma colagem
amarelo-berrante com uma mulher nua. Ela tinha bocas nos peitos, e em
vez de cabeça tinha um ferro. Se eu pudesse ser outra pessoa, seria Pete
Shelley, vocalista e guitarrista dos Buzzcocks.
Georgia está
saindo na hora em que eu chego. - O que você comprou? Ela diz: - O disco
novo dos Buzzcocks. - "Love You More"? E ela diz: - É... você curte os
Buzzcocks? E eu digo: - Mais do que isso, eles me curtem. Ela dá um sorrisinho
e mostra seus dentes engraçados, cheios de falhas; eu fico imaginando
como seria passar a língua dentro daquela boca. Ela não é muito bonita,
mas tem um jeito de ser ela mesma que é só dela. E eu também não sou nenhuma
pintura.
Ela pensa em algo e depois diz:
- Quer ir até a minha casa ouvir isso?
Eu digo: - Talvez.
Ela diz: - Bom, então foda-se.
Eu digo: - Talvez eu me foda. Ela diz: - Se você quiser vir, eu moro em
cima daquele pub. Ela aponta. - O Swan?
- digo. - Você vai até a porta preta do lado, aperta a campainha e diz
"Georgia".
Daí eu digo: - Legal, mas antes vou comprar um disco.
Ela diz: - Tá legal. Eu digo: - Té mais.
Entro na loja, compro o disco e também compro para ela uma cópia do "Gary
Gilmore's Eyes", dos Adverts, caso ela não tenha. O lado B é melhor que
o lado A Chama-se "Bored Teenagers", e o refrão é "We're just bored teenagers,
see ourselves as strangers", ou algo assim, e no final o vocalista (T.V.
Smith) canta "We're just bored teenagers, bored out of our heads bored
out of our MINDS", berrando "minds" de um jeito realmente passional.
Compro esse disco para ela por duas razões: a primeira, acho que ela vai
ficar impressionada ao saber que eu ouvi falar dele; a segunda razão é
que na colagem da capa está escrito "Um caipira da Georgia até me mandou
um pedaço de corda". Não sei por quê. Mas na aula de geografia aprendi
que a Georgia é um estado americano. Acho que Georgia vai gostar de ver
seu nome impresso.
Quando aperto a campainha, ela me deixa entrar, e vou subindo atrás dela
uma escadaria comprida e escura. Os degraus são cobertos por linóleo vermelho
e têm bordas de aço para você não escorregar. Sinto o fedor de cheiros
antigos, além de alguns cheiros novos. Enquanto ela sobe, fico olhando
para os vincos na parte de trás dos seus joelhos.
Entramos na cozinha; ela tira duas latas de cerveja da geladeira e joga
uma para mim. A geladeira está cheia de cerveja. Ela abre a sua lata,
eu abro a minha, e nós dois bebemos. Georgia senta-se na mesa balançando
as pernas e eu me encosto na porta; fico ali parado bebendo a cerveja.
Não falamos muito. Ela diz: - Tem um cigarro? Eu digo: - Não, eu não fumo.
Georgia parece desapontada, e aí grita para o corredor: - Mãe, tem um
cigarro? Uma voz (que parece irlandesa) diz de volta: - Tenho, aqui dentro.
Lá em casa, no nosso apartamento, ninguém fuma e tudo é limpo; além disso,
se eu convidar alguém para tomar chá comigo, minha mãe vai ficar o tempo
todo em volta, preocupada em saber se temos comida suficiente, esse tipo
de coisa. Georgia se levanta da mesa e diz: - Venha conhecer a minha mãe.
Passamos por um corredor cheio de jornais velhos, caixas de cerveja, instrumentos
musicais e alto-falantes em seus estojos negros. O carpete parece um fungo
de queijo.
As cortinas do quarto estão fechadas; a mãe de Georgia está na cama. A
tevê está ligada, transmitindo as corridas de cavalo. Ela faz sinal de
silêncio para nós. Quando a corrida termina, ela diz: - Ah merda.
Georgia senta-se na cama e dá um beijo na mãe, que diz: - Pronto, seu
pai vai passar a noite toda de mau humor. Alguém deu a dica de uma "barbada",
e ele correu feito um raio para apostar. Pegue os cigarros, meu bem, estão
ali em cima da mesa.
Achei que ela estivesse falando com Georgia; quando nada acontece, percebo
que ela está falando comigo.
Vou até a mesa; é redonda e feita de fórmica, como as dos pubs, e sustenta
um espelho retangular encostado na parede. O papel de parede tem flores
amarelas estranhas. Dou os cigarros a ela. Há uma caixinha de fósforos
da Swan enfiada dentro do celofane.
Digo: - Pronto.
Ela diz: - Agora sente-se.
Não há cadeiras no quarto, então sento-me na cama diante de Georgia, com
a mãe dela entre nós dois.
O sol está entrando por uma brecha entre as cortinas. Tudo que a luz toca
dentro do quarto parece limpo; o resto parece que está manchado de água
de lavagem.
- E então, Georgia, quem é o seu amigo? Não vai nos apresentar?
Georgia acende um cigarro.
- Esse aqui - diz ela - é o meu amigo Peter Shelley. Peter Shelley, essa
é a minha mãe.
Trocamos um aperto de mão.
Eu digo: - É um prazer conhecer a senhora.
Ela diz: - Pode me chamar de Claire.
Depois de dar uma tragada, ela diz: - Bom, vocês vão me desculpar, mas
eu preciso tirar um cochilo antes de abrir o pub hoje à noite. Vai ficar
até mais tarde, Sr. Shelley?
- Não sei, talvez - digo eu, rindo por dentro quando ela me chama de "Sr.
Shelley'.
- Bom, se quiser ficar, é bem-vindo. Mora longe daqui?
- No Attlee. Do outro lado do parque.
- Ouvi dizer que é muito agradável lá no Attlee.
- É legal.
- Que bom. Georgia, sirva a ele um pouco de chá. Ele está magro de dar
dó. Tchau, Peter.
- Tchau.
A caminho da cozinha, Georgia mantém as mãos atrás das costas. Ela abre
e fecha rapidamente as mãos; três pulsações.
Dentro da cozinha, ela faz chá e diz: - Quanto de açúcar?
Eu digo: - Três, por favor.
Digo que gosto da mãe dela, e ela diz que também gosta. Diz que a mãe
deixa que ela faça tudo que quer. Eu digo que minha mãe me deixa fazer
tudo que ela quer.
Georgia sorri e me olha de um jeito engraçado.
Pergunto por que ela disse que eu era Peter Shelley, e ela diz: - Porque
quero que você seja.
Eu digo: - Eu também.
Ela retruca: - Então pronto.
Entramos no quarto dela. As paredes têm anúncios da revista NME, pôsteres
do Clash, dos Buzzcocks, dos Sex Pistols, de Siouxsie and the Banshees,
de Ian Dury, dos Dead Kennedys e de outros mais. Há discos por toda a
parte. E dois vestidos num cabideiro. Dou a Georgia o single dos Adverts,
e ela fica feliz. Quando encosta no meu braço por um instante, eu fico
de pau duro. Uma coisa esquisitíssima. Mas broxo dali a pouco.
Depois sentamos na cama dela, com as canecas no chão. Tiramos nossos compactos
dos Buzzcocks de dentro das sacolas. Resolvemos trocar. É como se fosse
uma brincadeira. Concordamos que a capa é melhor do que as duas últimas
("What Do I Get?" e "I Don't Mind"). É um diagrama cor-de-rosa e roxo,
mostrando nove aposentos vistos de cima. O logotipo dos Buzzcocks (com
o segundo Z elevado acima do primeiro) está em cor-de-rosa no canto inferior
esquerdo. Na parte de baixo da capa, em maiúsculas, está escrito UP36433:
LOVE YOU MORE.
A contracapa é mais complicada: há um homem e uma mulher desenhados nos
mesmos nove aposentos, mas nunca juntos. Eles estão empurrando alto-falantes
de um lado para o outro... talvez para acertar o som. Quem sabe?
No aposento do canto inferior direito há um homem segurando uma tábua
ou uma bandeira com a letra K. É difícil saber o que ele está aprontando.
Tudo é muito misterioso.
Georgia tira
o disco da capa; como o disco é novo em folha, meio que gruda no papel,
produzindo leves estalidos de estática. Damos uma olhada no rótulo. Notamos
que a música é muito curta: 1 minuto e 45 segundos.
O lado B, que eles sempre chamam de "lado 1", tem 2 minutos e 49 segundos.
Chama-se "Noise Annoys". Georgia segura a borda do disco com as pontas
dos dedos. Os dedos dela são bem roídos, mas mesmo assim parecem bonitos.
Beberico o chá por polidez. Está horrível. O leite azedou e fica boiando
por cima.
Ela diz: - Você acha que a música deve ser rápida ou muito rápida?
Digo que desde que não seja lenta, pouco me importa; como é muito curta,
deve ser muito rápida.
Examinamos a espiral interna do rótulo em busca de mais informações. Rabiscado
em maiúscula, está escrito "O MERCADO CROSSOVER". Não sabemos o que isso
significa.
Georgia diz:- Vamos pôr o disco para tocar.
Faço que sim com a cabeça. Minha boca está cheia de chá. Ela põe a mão
na minha perna e segura o disco com o polegar na lado A e os dedos no
lado 1.
Estou olhando para ela; meu rosto está a oito centímetros do dela, e Georgia
diz:
- Cuspa tudo em cima de mim. Eu nego com um gesto de cabeça. Enquanto
isso, minhas bochechas estão inchando e minha boca está sorrindo. Ela
diz: - Não tem coragem? - Sua mão já está entre minhas pernas, e ela começa
a levá-la mais para cima. Eu cuspo o chá no seu rosto; ela encosta o rosto
no meu, e sinto uma quentura molhada. A boca de Georgia tem gosto de cerveja
e cigarros; ela está enfiando a língua em toda a parte, e eu estou fazendo
o mesmo. Sinto o intervalo entre seus dentes e digo: - Gosto desses buracos,
e ela diz: - Eles são horríveis, e eu digo: - Eu adoro.
Parecemos dois cachorros brigando.
Enfio as mãos e a boca em tudo que é lugar ao mesmo tempo. Acho que posso
gozar a qualquer segundo, e não sei se isso é permitido. Será que ela
sabe o que é porra? Deve saber, ela tem "Orgasm Addict".
Fico imaginando vagamente se ela tem porra ou algo equivalente que também
saia.
Tomara que sim.
Subitamente ela se levanta e põe o disco para tocar no volume máximo;
aí voltamos a nos debater no chão.
O disco toca várias vezes, porque o aparelho de som dela tem um mecanismo
para isso.
Por volta da quarta vez; já conseguimos distinguir mais palavras dentro
daquela barulhada rápida e incessante; cantamos juntos e nos atracamos
feito loucos.
Estou em cima dela, que tem o vestido erguido até a cintura e ainda está
de sapatos; ponho a mão entre as suas pernas e enfio alguns dedos (três)
dentro dela; depois tiro os dedos e provo o sabor, que só Deus sabe do
que é, mas acho interessante.
Georgia lambe os meus dedos e franze o nariz.
- Você sabe o que fazer?
Digo: - Não tenho certeza, e você?
Ela diz: - Não, mas não pára.
Ela enfia a mão dentro da minha calça. Começa a bater uma punheta em mim,
exatamente como faço comigo mesmo; fico totalmente chocado.
Como ela aprendeu a fazer isso? Como pode saber?
Digo: - Não faz isso, eu vou gozar.
Ela sussurra no meu ouvido: - Então goza.
Eu gozo.
Ela enxuga a mão nos lençóis, lambe os dedos e depois me beija, para que
eu possa sentir o gosto daquilo.
Aqueles alto-falantes
de bosta estão berrando "Love You More".
A música é muito alta e rápida, vem e vai, e o final é desesperadamente
súbito e triste. Minhas calças estão abaixadas, e o vestido de Georgia
está erguido até o pescoço; ela tem tão pouco peito quanto eu. Berrando
no ouvido dela por cima da música, eu digo alto demais: - E agora?
Ela assente com a cabeça; de repente sua boca está no meu pau, sua boceta
está na minha cara e estamos nos contorcendo feito dois peixes. Começo
a lamber aquela área toda; para dizer a verdade, porém, por um instante
me sinto meio idiota, porque a música pára enquanto o mecanismo do aparelho
entra em ação, e só se ouvem os nossos barulhos. Subitamente, imagino
que minha língua está pintando uma parede cujo reboco está caindo; isso
até que é agradável de fazer, mas não tanto. E ela parece estar meio que
roendo um osso que eu vejo com o canto do olho, e tudo aquilo parece um
pouco ridículo. Não consigo me concentrar no prazer que ela está me dando
porque tenho que fazer a mesma coisa com ela. No silêncio só se ouvem
aqueles barulhos úmidos e escorregadios, mas aí a música recomeça e tudo
volta a ficar legal. Continuamos assim mais um tempo, e quando a música
começa de novo, talvez pela décima sexta vez, ela rasteja até a minha
cara e diz: - Vamos foder.
Fico por cima dela, que sorri enquanto Pete Shelley uiva sem parar. Encontro
o buraco certo logo de cara; para dizer a verdade, não tenho certeza se
é o buraco certo, mas Georgia diz que é. Depois que enfio, nós dois prendemos
a respiração e ficamos olhando um para o outro de olhos arregalados. Eu
digo: - Puta que pariu, e ela diz: - Ai meu Deus, caralho, e nós dois
estamos meio que rindo. Pra mim é uma sensação esquisita, de modo que
para ela deve ser tão esquisita quanto, se não for mais, e também penso
que é isso que causa tanta confusão no mundo, e aí entendo tudo.
Deito em cima dela e enfio tudo, até o final; a essa altura estamos suados
e cobertos de saliva (além de chá e um pouco de porra). Ficamos parados,
deitados ali, simplesmente contemplando nossa situação.
Digo: - O que você está sentindo?
Georgia diz: - Não sei, uma coisa cheia, engraçada, é bom. E você está
sentindo o quê?
- Não sei, é como se alguém tivesse tirado a minha pele e me enfiado num
banho quente.
Ela diz: - Mexa assim, olhe.
Começa a se mexer, e eu mexo com ela, cada vez mais depressa. Depois ela
diz: - Diga quando você vai gozar, eu vou gozar, diga quando você vai
gozar.
Eu digo: - Agora, agora.
Nós dois gozamos e ficamos caídos ali; arrasados, como se diz.
Depois de um tempo ela se estica e tira da tomada o fio do aparelho de
som, antes que a música comece de novo.
Eu me estico junto, ainda dentro ela. Tudo está silencioso.
Ficamos deitados ali, abraçados, e depois ela diz: - Acabamos de perder
nossa virgindade.
Digo: - Eu achava que você me odiava.
Ela diz: - Odeio mesmo.
Belisco o braço dela, e ela soca a minha perna.
Depois voltamos a ficar deitados sem fazer nada, contemplando as coisas
novamente.
Quando eu começo a broxar, digo: - Quer que eu tire agora?
Ela diz: - Tá legal.
Vou tirando bem devagar. Nós dois damos um pequeno arquejo. Realmente
arquejamos.
Dou uma olhadela para baixo e vejo um pouco de sangue. Penso que isso
é legal.
Ela diz: - Você esteve na guerra.
Está realmente falando com o meu pau, como se ele fosse outra pessoa ali
no quarto.
Ela segura meu pau delicadamente e diz: - Você esteve nas trincheiras.
(Nós estudamos a Primeira Guerra Mundial neste semestre).
Digo: - Você está grilada com o sangue?
E ela diz: - Estou numa boa.
Simplesmente adoro ouvir isso.
Depois ela acende um cigarro e diz: - Meu primeiro cigarro pós-coito.
- Coito é foda, não é?
E ela diz: - Cem por cento.
Depois de um tempo nós levantamos. Ficamos deitados na cama, beijando
e acariciando um ao outro, escutando os discos prediletos dela, discutindo
as letras, conversando sobre a escola.
Vamos a pé até a minha casa, sentido o mormaço do verão. Eu digo que não
vou conseguir dormir, e ela diz: - Bata uma punheta pensando em mim.
Digo que vou fazer isso, mas na realidade não vou, porque estou todo dolorido
lá embaixo.
Sentamos no meio-fio perto do meu prédio.
Minha mãe aparece na varanda; está escurecendo.
Ela grita, dizendo que estava louca de preocupação por causa do meu sumiço.
Peço desculpas, digo que estava com Georgia e que aquela ali é Georgia.
Minha mãe sabe tudo sobre a Georgia, e sorri.
Diz: - Você precisa tomar chá conosco, Georgia.
Nós nos despedimos com um beijo.
Eu digo: - Adoro o seu cabelo, adoro o seu vestido, adoro os seus sapatos,
adoro os seus cordões, adoro o seu corpo.
Ela diz: - Não seja idiota.
Subo no elevador imundo me sentindo o máximo.
Vou até a varanda para ver Georgia se afastar, mas ela ainda está parada
na rua, fumando. Ergue o olhar para mim e diz: - A gente esqueceu de escutar
o lado B.
Digo: - Amanhã?
Ela diz: - Amanhã.
E sai andando.