Desde 1978, os Descendents sempre foi um hobby de Bill Stevenson, uma
banda que gravava e fazia poucos shows quando ele estava com tempo livre.
O "problema" é que eles lançavam álbuns fantásticos. Falavam sobre relacionamentos,
comida, pescaria, café, rejeição e outros temas bem adolescentes. A música
era crua, rápida e urgente. Quando o vocalista Milo, resolveu fazer faculdade,
a banda acabou e Bill Stevenson começou tocar com a sua banda predileta
na época, o Black Flag. Escrevendo um dos capítulos mais interessantes
do hardcore americano, a batida surf punk cafeinada de Bill, influenciou
tudo de importante que viria depois.
"No novo álbum que gravei com o Queens Of The Stone Age, tem várias músicas
inspiradas no Black Flag, numa delas chamada "Song For The Dead", o riff
de bateria é um tributo meu, ao Bill Stevenson".
Dave Grohl - setembro 2002.
Em 85, Bill deixa o Black Flag, e os Descendents ressucitam, lançando
"I Don't Wanna Grow Up".
Em 86, com Doug Carrion (futuro guitarrista do Dag Nasty), a banda começa
a experimentar mais. Músicas instrumentais, partes rápidas, partes lentas...
loucuras extremamente bem tocadas e inovadoras.
Em 87, com a entrada dos excelentes músicos Karl Alvarez e Stephen Egerton,
lançam um disco chamado "ALL". Neste álbum, toda a experiência, experimentação,
inspiração e melodia dos Descendents veio à tona. Bill estava tocando
como nunca, Milo estava cantando como nunca... muito disso se deve a empatia
e casamento perfeito da nova formação. Porém Milo resolve deixar a música
de lado para se dedicar a sua outra paixão e profissão, a Biologia.
Com uma formação tão sólida e comungada, Bill Stevenson, Alvarez e Egerton
resolvem formar uma nova banda, e convidam o ex-Dag Nasty Dave Smalley
para ser o vocalista. Assim nasceu o ALL no final de 1987.
A sonoridade do ALL seria um Descendents mais rock.
Muitos shows e dois registros (Allroy Sez e Allroy For Prez) marcaram
a curta história de Smalley na banda. Scott Reynolds entra em 89 e o casamento
é perfeito. Reynolds trouxe ainda mais malícia, groove, funky e country
roots à sonoridade do ALL.
Os álbuns desta fase são fabulosos: "Allroy's Revenge", "Trailblazer"(ao
vivo), "Allroy Saves" e "Percolater" foram álbuns inovadores, irregulares,
dissonantes, disformes e experimentais.
Em 93 saí Scott e entra o ótimo Chad Price. Seguindo uma linha mais rock,
lançam "Breaking Things" e "Pummel", este último em 95.
Em 1996, os Descendents voltam com "Everything Sucks", um álbum que deveria
fechar com chave de ouro a popularidade do hardcore.
Mas a história foi diferente.
Com a entrada da banda na Epitaph, a sonoridade do ALL ficou um pouco
previsível e palatável até para ouvidos mais acomodados. O que se viu
de lá para cá, foram álbuns excelentes, como o "Problematic", mas nada
de muito inovador.
Mas as novidades são as seguintes: os Descendents já gravaram um disco
novo que está em fase de mixagem. Já o ALL, está com dos discos a caminho.
Sendo que um deles vai ser instrumental e experimental. Algo como o jazz
de Charlie Parker misturado com o punk do Minutemen.
"Estamos um pouco cansados do público que vem nos seguindo nos últimos
anos. Eles só querem subir no palco e depois se jogar como estivessem
andando de skate. As músicas do ALL tem muitos detalhes que deveriam exigir
total atenção do nosso público. Estamos pensando em fazer uma tour com
Mike Watt, por exemplo, assim atrairíamos ouvintes realmente atentos.
Poderíamos lançar este disco instrumental sob o nome dos Descendents,
venderia 10 vezes mais. Porém acho que é hora do ALL mostrar que a música
pode ser mais abrangente, polirrítmica e menos previsível".
Bill Stevenson - setembro 2002.
Na verdade o ALL não precisa mostrar ou provar nada. Com uma carreira
de 15 anos lançaram mais de 10 discos. Extremamente competentes atraem
fãs antigos e os já supra-criticados punks mirins.
Na semana que vem, esta estupenda banda estará realizando sua primeira
turnê pela América do Sul. 5 shows estão marcados. Um em Santos, um em
Buenos Aires, dois em S.P. e outro em Curitiba. O show de Curitiba acontecerá
na quinta feira dia 10 de Outubro, no Moinho São Roque, abrindo a Punktoberfest,
promovida pela Barulho Records. Os organizadores me prometeram que o show
do ALL deve começar antes da meia noite. Organização séria e ética, respeitando
o público e o artista... bem diferente da palhaçada promovida por Vicente
Bueno, que ofuscou o que deveria ser um ótimo show do Samiam aqui em Curitiba.
Bill Stevenson e companhia prometem tocar músicas de todas as fases do
ALL, além de alguns temas dos Descendents.
Além da fantástica música e da competência técnica, o que me faz ser um
profundo admirador do ALL, são as suas letras.
Para ilustrar esta Song Of The Week, escolhi uma música do ALL que fala
sobre um tema complexo e difícil, o aborto.
Letra de Bill Stevenson relatando sua experiência própria e seus sentimentos.
Misturando prós e contras, BIRTHDAY I.O.U (versão ao vivo do álbum "Live
Plus One") é a minha música desta semana.
I.O.U. so many things I.O.U. everything But I can't repay you And
it's too late to save you There really wasn't a choice Seventeen is just
too young I couldn't hear your voice I couldn't feel you living I.O.U.
so many things I.O.U. everything But I can't repay you And it's too late
to save you my son My mistake, my son, my mistake I know you could have
been a girl baby Now you can't be anything We needed you prove your love
We used you, then we killed you Right to life? Who decides? Is there wrong
and right? When mom and dad treated you so bad We made our own decision
No one else's business We'll learn to live with our mistakes Live by learning
from our mistakes My mistake.